28 de setembro de 2016

Na minha porta não!

                Tudo começou com uma brincadeira. Na verdade a conversa teve início por causa de uma música “de viado” - I Will Survive – que tocava na vitrola da virada de ano. É um papo antigo, mas sempre atual. Toda forma de preconceito e discriminação carregam junto um porém que justifica as falas, tira o sujeito da responsabilidade do que diz e, por tabela, reforça nitidamente um preconceito em forma de aceitação. “Na minha porta não!” Dizia ele enquanto explicava sobre o excesso de viadagem que presenciou em uma ótica. A pessoa pode fazer o que quiser, não tenho nada com isso, mas... “Não precisa se abraçar em público”, “Na minha família não tem isso”, “Porque todo mundo tem que saber?”, “De mãos dadas é demais!”. E por aí segue a sequência de absurdos sobre a forma de perceber, vejam bem, as expressões DE CARINHO, entre duas pessoas do mesmo sexo. Não estamos falando de sexo explicito ou de manifestações públicas cuja intenção seja de fato agredir, mas da expressão de afeto entre duas pessoas do mesmo sexo que se amam e que, como todos, querem ter o mínimo direito de demonstrar esse amor. Ah o amor... “essa palavra de luxo”, mas que, quando aplicada ao não normativo, perde todo o sentido. Não era para ser algo adorável? Multiplicado entre as pessoas? Que gera bem estar e consequentemente mais amor entre as pessoas? Não seria o amor o caminho para a paz e a solidariedade que tanto desejamos? Puro engano. O amor só será aceito quando estiver dentro das normas. Dentro do que se estabeleceu sobre o que é certo, dentro dos padrões daqueles que muito provavelmente, não sabem amar. Não na essência, não na sua incondicionalidade, não no amor que se espalha e gera menos rancor e mal estar entre as pessoas.
                É certo que vivemos um momento de transformações e, justamente por esse motivo, posso escrever sobre esse assunto agora. Mas, apesar disso, ainda que todos nós tenhamos o desejo de viver o amor, o grande amor, esperamos que ele tenha forma, rosto, sexo adequado e tantas outras condições para ser aceito. Por sorte, alguns estão caminhando na contramão desse processo, ainda bem! E são essas pessoas que ajudam a tornar a vida de quem vive seus amores inadequados mais alegres, mais leves. Isso para mim é amor. O amor de quem consegue se colocar no lugar dessas pessoas, que consegue ir além da convenção e que se disponibiliza a estender a mão na direção do afeto e da construção. E as coisas triviais como convites para festas onde o casal está incluso, por exemplo, passam a ter um valor incrível. Por isso, o cuidado com o outro é sempre uma forma de carinho e compreensão. Quando “Não temos nada com isso” temos disponíveis duas opções: de fato não nos envolvermos, mas de forma sincera deixar que cada um tome conta da sua vida, já que não estamos buscando promover a homossexualidade, mas apenas viver esse amor como outro qualquer; ou passarmos a enxergar as causas sociais como coletivas e envolvermos nas discussões, na busca pelo conhecimento e na promoção da efetiva igualdade de direitos. 
Enquanto o amor precisar ser escondido atrás da porta ele falhará...

12 de dezembro de 2014

Um olhar feminino sobre a "Maridocracia"

Fim de ano é época de retrospectivas, e a minha propõe uma visão diferente. Costumamos refletir sobre tudo aquilo que fizemos durante o ano e pensamos em como melhorar para o ano seguinte, aproveitando o momento de misticismo e superstições para emanar boas vibrações e desejar que o que está por vir seja renovador e sempre melhor. Afinal, mal não faz...

Lembrando das minhas experiências pessoais cuja retrospecção foi além de 2014, percebi o quanto de demérito costuma ter uma conquista exclusivamente feminina quando comparada às conquistas masculinas ou àquelas obtidas por casais tradicionais, cujas mulheres realizam suas conquistas por influência de seus parceiros. Corre um grande risco de eu estar enganada, e espero que eu esteja, mas vou apresentar a minha mais fervilhante reflexão. 

As primeiras cobranças para sermos mulheres bem sucedidas, isso na minha geração, vieram da expectativa de um "bom casamento" para que pudéssemos nos sentir seguras e confiantes, sendo que o resto viria naturalmente junto com o matrimônio. Como dizia minha avó: "procure sempre alguém melhor do que você", na intenção de que o sucesso fosse mais garantido, creio eu. Na certeza de que essa mulher não teria planos profissionais audaciosos, cuja visão permaneceria estagnada em tempos remotos, viriam as próximas cobranças sociais e mais proximamente familiares, de que essa mulher pudesse ter filhos para que a sua vida finalmente estivesse completa. E lá vamos nós seguindo nossos cursos de vida conforme os velhos livros de biologia que nos ensinavam sobre o ciclo simplista do "nascer, crescer, reproduzir e morrer". Mas a biologia ainda não conhecia as ciências humanas e sociais, e esquecendo-se de atualizar-se, as pessoas, ao menos muitas delas, permaneceram com essa expectativa de vida que eliminava qualquer possibilidade entre o crescer e reproduzir e, mais ainda, entre o reproduzir e morrer. 

As possibilidades femininas limitavam-se desse modo a variações poucas, sempre incluindo a necessidade de alguém, de preferência um marido, para que pudéssemos nos tornar visíveis e ajustadas socialmente, mantendo a ordem natural das coisas. Para que mexer nisso se está tudo dando certo?

Mas, por ironia o mundo mudou, as mulheres mudaram e os espaços e possibilidades se ampliaram para nós. Só que muitos ainda esperam de nós o casamento, os filhos e o desejo (alheio) de que possamos nos completar com tudo isso. 

Vamos voltar à minha reflexão pessoal... Nasci, cresci e... Ao invés de casar e reproduzir, investi nos estudos e no trabalho. E você pode me dizer sabiamente: "mas eu também investi nos estudos e no trabalho, assim como muitas mulheres que conhecemos e elas, bem sucedidas, ainda casaram e tiveram seus filhos". Sim, elas existem! Mas a minha análise vai mais além. O que tenho notado é que as conquistas dessas mulheres, as que cumprem seus papéis sociais dentro dos conformes, costumam ser mais exaltadas do que aquelas realizadas por mulheres independentemente de seus parceiros. A "maridocracia", palavra que creio ter inventado, é um algo mais que eleva essa mulher socialmente. Percebo isso quando relato que não sou casada e que não tenho filhos, apesar dos meus 37 anos. E o mais espantoso é que as pessoas parecem não acreditar que não me sinto incompleta nem infeliz por isso. Muitas inclusive insistem dizendo que "uma hora a vontade vem", nesse caso referindo-se aos filhos, já que casar é uma vontade. 

Considerando que não casei (ainda) e que tudo que conquistei foi por esforço próprio e investimento educacional de minha mãe, já falei dela antes, sinto que muitos me olham como se fosse um E.T. e que aguardam o dia em que de fato possam me parabenizar. Concluir um mestrado, estar empregada, ser reconhecida na profissão, comprar um carro zero pago a prestações, concluir o doutorado, e qualquer outra coisa que possa fazer me dão a sensação de que perdem o valor diante de uma mulher que marca um casamento ou engravida pela décima vez. Talvez eu esteja exagerando, mas a ideia é pensar sobre isso, pois essas coisas acontecem e, muitas vezes sem que nos demos conta, principalmente quando acontecem com outras pessoas, não conosco.

Ainda me soa estranho que em pleno século XXI as pessoas se ocupem mais da vida dos outros do que das suas próprias, se preocupem mais do que nós sobre nossas escolhas pessoais, se minimizem tanto em um mundo que mudou e que trouxe inúmeras possibilidades, se contentem com opiniões ao invés de informar-se... Maridocracia é algo para se guardar como história. Cada um precisa se valorizar pelo que é e pelo que constrói, inclusive seus casamentos e seus filhos, se desejar, mas que seja algo a mais e não a única possibilidade de ser reconhecida em seu lugar de mulher, porque ninguém precisa ter um lugar só.

6 de outubro de 2014

Mais do mesmo: A política da ignorância e do preconceito


Em meio a tantas tensões pré eleições e a uma configuração política movimentada e emocionante com a morte de um presidenciável, uma candidatura anunciada, porém inesperada, expectativas sobre mudanças e receios por todos os lados, surpreendentemente algo conseguiu se destacar: A política do preconceito.

Obviamente que todos nós sabemos o quanto o preconceito e a discriminação no Brasil continuam com força total (ainda que mal disfarçadamente mascarado), mas é sempre tenebroso perceber o quanto as pessoas (seres humanos?) podem ser mesquinhas, ignorantes, arrogantes e preconceituosas. 

Desde ontem, quando foram anunciados os candidatos ao 2º turno das eleições para Presidente da República, indicando as regiões onde Dilma e Aécio tiveram maior votação (norte e nordeste e regiões sul e sudeste, respectivamente) que as atrocidades começaram a invadir a internet, das mais absurdas maneiras. E pasmem, nem precisamos vasculhar porque a enxurrada de abobrinhas (abobrinhas é muito meigo para o que anda circulando por aí...) passou a invadir as nossas páginas, despejando absurdos sobre nossos olhos. O pessoal do Sul/ Sudeste, que acredita que o Brasil é dividido em ricos, brancos e héteros de um lado e pobres, pretos e homos do outro, costuma considerar que essa evidente classificação os torna mais "sabidos", mais politizados e privilegiados em relação ao resto (e aqui serve como sinônimo de "sobra") do país. E sobre isso eu quero contar uma breve história.

De um lado, pertenço a uma família tradicional da Bahia que teve um representante, meu tio avô, que criou o Hino do Esporte Clube Bahia e influenciou toda uma geração de jovens através de um projeto educacional conhecido como "A hora da criança", numa época em que se conhecia o que era cultura e  crianças e jovens eram capazes de se engajar em atividades artístico-culturais de grande valor para a formação pessoal e de um país. Hoje tenho um tio que se tornou presidente da Academia de Letras da Bahia e tem dezenas de livros publicados, sendo reconhecido por sua oratória, vasto conhecimento e seriedade. Família da minha mãe, todos soteropolitanos e muito felizes por terem nascido aqui e fazerem parte da história da Bahia. Do outro lado, uma família qualquer do Rio de Janeiro, cidade onde nasci, onde minha mãe conheceu meu pai (?) e teve duas filhas. Para ser menos parcial, tive uma tia avó que era uma professora universitária muito querida e adorava me mandar livros e ler para nós. Só...

Minha mãe teve duas filhas e não conseguiu sustentar um casamento onde apenas um dos dois trabalhava e investia na família: Ela! Ele, um preguiçoso sustentado pela mãe e mimado... Ela, uma nordestina, que começou a trabalhar aos 18 anos, ajudou a pagar as contas de casa, enfrentou dificuldades das mais diversas e conseguiu com alguma ajuda da minha vó, criar e educar duas filhas, com um salário de professora e, naquele tempo, bolsas escolares. Minha mãe saia cedo e só chegava em casa no início da noite, sempre trabalhou muito, algo que provavelmente me deixou como legado. Ele, ao contrário, nunca teve um trabalho sério e JAMAIS contribuiu com nada que pudesse ajudar na nossa formação, de forma financeira ou afetiva. Ela nos proporcionou uma educação de qualidade que nos permitiu estudar em universidade pública, caso contrário não teríamos conseguido nos formar.

Usando o raciocínio fascista do discurso sulista, que obviamente não representa a todos, mas uma minoria irritante, ele deveria ser o inteligente, trabalhador e responsável, que sabe se posicionar, conhece os valores da família e sabe escolher o melhor governante para o seu país. Ela, por outro lado, deveria representar a preguiça e a ignorância, além de não dever ter o direito ao voto. Mas a história, como sabemos, não é bem assim. Basta lembrarmos que quem estragou o Brasil não foram os índios nem os escravos, mas justamente a aristocracia prepotente,exploradora e arrogante, como seus supostos descendentes que hoje reclamam de suas poltronas acolchoadas, de suas políticas de Facebook, de seus votos de cabresto, que trouxeram o país para o lugar onde ele está. Essas pessoas, que hoje abrem a boca e mostram seus rostos na internet, estão certas da impunidade, assim como estão certas do lugar privilegiado que ocupam. Por outro lado, não demonstram capacidade de argumentação ou de conhecimento, apenas reclamam, e reclamam, de forma tosca e ofensivamente repetitiva, como uma criança que, por não saber como se expressar faz birra e xinga o coleguinha.

É preciso acordar para a época em que vivemos, onde não cabem mais atrocidades como essas. Independente do posicionamento político que, nesse caso, foi somente um ponto de partida, precisamos aprender a respeitar o próximo e principalmente nos lembrarmos que todos pertencemos a uma mesma espécie. O homo sapiens do sul/ sudeste não é mais "evoluído" do que o homo sapiens do norte/ nordeste e, se fosse possível essa distinção, não duvido que o mais evoluído seria o homo sapiens nordestino por razões que a própria história reconhece. O Brasil nasceu aqui e há mais de 30 anos que sou baiana. Não podemos mais ficar calados diante de tanta discriminação e incitação ao ódio. 

Pelo que vimos, quem vota em Feliciano e Tiririca, vota consciente...

16 de junho de 2014

Sobre a sexualidade das cores

Há tempos venho percebendo a sexualidade das coisas. Sim, das coisas... As pessoas, por alguma razão certamente escusa, têm ressaltado a necessidade de demarcar a sexualidade alheia pelas cores que usam ou preferem. Você pode me dizer: "Mas sempre foi assim!" E eu pacientemente seria capaz de compreender, mas não é o caso.

Eu sei que você tem razão ao fazer essa afirmação, mas as coisas sempre são como são pelo simples motivo de aceitarmos as normas sociais de um determinado momento histórico, sem nos propormos a discuti-las ou questiona-las. Foi assim com as noções de "inteligência", a ideia de Deus, os movimentos higienistas e a escravidão. Tudo sempre muito "normal"e até mesmo bem explicado e fundamentado. Mas o que quero propor é uma reflexão sobre a "normalidade" dos fatos. 

Nascemos em uma sociedade que espera e muitas vezes deseja filhos e, além disso, cria expectativas sobre o sexo da criança seja por questões familiares, pessoais ou irrelevantes. Mas, no geral, o que vemos é uma grande "disputa" que começa antes mesmo da concepção, e apostas sobre o sexo do bebê quando a mulher já encontra-se gestante. Os avanços da medicina permitem esse conhecimento a seu tempo e têm contribuído bastante para melhorias na saúde do bebê e da criança ao longo do seu desenvolvimento, aumentando a qualidade de vida e saúde dessas crianças, ao menos cientificamente. Conhecendo esses recursos e reconhecendo a importância de realizar os exames pré natais, os pais emocionam-se quando descobrem o "sexo do bebê" e dão início a uma corrida interminável pelo planejamento do ambiente ideal para essa criança, definidos prioritariamente pela cor que demarca a sexualidade desse bebê e dizem alegres: "É um menino! Vamos colocar um azul nessa parede e uns carrinhos espalhados pelo quarto!". Caso se trate de uma menina, nesse aspecto há maior flexibilidade podendo variar do rosa ao azul bebê, mas a preferência é pelas cores que antecipadamente definem a feminilidade da menina. Mas será mesmo?

Nos acostumamos tanto com as coisas que achamos bobagem discutir tudo, principalmente algo tão banal quanto o uso das cores que vestem nossos corpos ou que pintam nossas paredes. Cor é cor, isso é uma bobagem. Talvez seja... Mas foi assim que nos convencemos das explicações rasas que mantêm estereótipos de todas as formas, dentre eles aqueles relacionados à sexualidade. E um assunto leva ao outro, confundidamente nós nos acostumamos a falar de sexo, gênero e sexualidade sem saber exatamente do que se trata.

Vamos considerar que o sexo é o "aparato" biológico que me faz afirmar que uma criança é menino ou menina apenas por sua constituição anatômica. Já o gênero envolve uma questão social mais ampla e trata sobre a percepção que os indivíduos têm sobre si mesmos em relação ao sexo ao qual pertencem, reconhecendo-se como "meninos e meninas" ou "homens e mulheres". A sexualidade implica em ir muito além dessas questões e diz respeito à orientação sexual e suas vicissitudes que incluem sexo e gênero, não sendo possível me estender mais do que isso. Mas o grande "medo" da sociedade branca, hétero, cristã e burguesa encontra-se justamente relacionado a esse último conceito: a sexualidade. Num país onde a leitura perde espaço para a fofoca e a vida alheia, esquecemos de nos informar ou não nos interessamos mesmo, e passamos a replicar antigas crenças sobre sexualidade. Uma delas conseguimos reconhecer através das cores. A escolha de uma cor na infância, assim como do uso de certos objetos ou brinquedos, pode definir a nossa sexualidade... E, quando escolhemos a cor mais adequada para cada sexo, evitamos o pior no futuro e tudo se torna uma grande confusão para quem reflete sobre essas questões.

Quem inventou as cores? Melhor! Quem inventou o nome das cores? Quando definimos que "azul é de menino e rosa é de menina?" Onde está o manual sócio adaptativo das cores às pessoas? Não quis pesquisar sobre isso porque a proposta é falar de comportamentos cotidianos a partir de um olhar menos "científico" e mais analítico, mas fica a sugestão.

Em muitos dos meu passeios à livraria notei que a loja tem adesivos de duas cores diferentes para colar nas embalagens para presente: rosa e azul. O rosa é muito "pink" e o azul é num tom forte, talvez para não deixar dúvidas sobre a sexualidade das cores. Afinal, elas devem ser claras quanto àquilo que desejam comunicar. E num deses momentos, ainda na fila para embalar presentes, me chamou a atenção a pergunta da embaladora: "É para menino ou para menina?" no que a cliente prontamente respondeu "para menina" e ela colou o adesivo "pink" para a menina se sentir mais menina e a presenteadora sentir-se satisfeita por sua contribuição nesse quesito. A minha vontade foi perguntar se havia diferença, mas não achei conveniente interferir na conversa alheia. Pacientemente, esperei a minha vez...

E ela chegou. Certo dia, escolhi um livro e pedi para embalar numa embalagem infantil e, confesso, já havia me esquecido que existiam adesivos azuis e pinks, quando a embaladora perguntou: "É para menino ou para menina?" e eu pensei um pouco... "Tanto faz!". Senti que ela não esperava essa resposta e, confusa, insistiu: "Eu preciso saber para colocar o adesivo" e eu "Tanto faz!" e acrescentei "Não faz diferença a cor do adesivo. Escolha um". Então, inconformada, ela, passando a mão alternadamente sobre o adesivo rosa e o azul como se fizesse "uni-duni-tê", retrucou: "Então vou escolher o azul, porque se for menino o rosa é muito pink". Aceitei seu argumento irrefutável e deixei que ela colasse o adesivo,saindo sem dizer palavra sobre o sexo da criança.

Talvez eu não mude o mundo questionando sobre as cores, mas ao menos podemos pensar que a sexualidade está em nós e que precisamos de muito mais do que cores adequadas para discutir essa questão.


25 de julho de 2013

Sobre equidade e diferenças

No último domingo tive o imenso prazer de ser convidada, e porque não, intimada a assistir um show musical sobre o qual não tinha ideia das sensações agradáveis que  me traria. O show era de um cantor baiano, famoso por sua união musical com outros artistas, de nomes mais divulgados do que o seu, conhecido como Paulinho Boca de Cantor. Mas, o que esperar desse ilustre cantor, incrivelmente desconhecido de muitos, em um show matinal de domingo a preço tão popular?

Era domingo, o show começaria às 11 horas, tinha visto no panfleto. Começava a minha semana oficial de folga antes de retomar fervorosamente os estudos e o trabalho, estava precisando. O cansaço me consumia demais e, mais do que ele, um sono interminável que me fez de início recusar o convite de sair daquela cama maravilhosa, que tanto satisfazia as minhas necessidades mais imediatas. Não levantei. Minutos depois recebi um telefonema que me dizia: "Venha, levante e venha me encontrar aqui! Ainda dá tempo". Algo além daquele telefonema me convidava a sair da cama, por mais insano que pudesse parecer naquele momento. De súbito, levantei! Lavei o rosto, coloquei uma roupa, tomei um leite e saí. Já não lembrava mais do sono, apesar dos meus olhos dizerem o contrário.

Já na porta do teatro, havia algum movimento. Subi as escadas, paguei R$ 1,00 e, de posse do bilhete, entrei no teatro. Antes de iniciar o show houve uma apresentação de balé. Era algo muito abstrato, algo que eu certamente não consegui alcançar. Mas o show musical seria diferente. Nele o cantor se propôs a contar entre introduções e músicas de compositores conhecidos, a história da música baiana. Que ideia simples e genial ao mesmo tempo. O repertório foi muito bem escolhido e nos apresentou primorosamente toda alegria e singularidade da música baiana desde 1902 aos dias de hoje. Sensacional! Mas houve algo mais do que um excelente repertório cantado por um cantor animado, competente e sua banda maravilhosa. Surpreendentemente havia algo de sensacional na platéia também.

Como podem imaginar, a música baiana tem uma origem alegre, algo que nos instiga a mexer com o corpo, além de transbordar a nossa alma de felicidade. Era algo como um samba, não sou boa em classificações musicais, mas era uma música alegre e instigante do ponto de vista corporal. Creio que não houve quem não se movimentasse, mesmo que discretamente, sentados em suas poltronas. Mas dentre todos aqueles que assistiam comportadamente ao espetáculo, um se destacou. Um rapaz jovem, levantou-se e começou a sambar. Movimentava o corpo de forma tão entusiasmada que o público encantou-se. Não satisfeito ele foi até a frente do palco, e lá apresentou seu show de dança particular de forma espontaneamente encantadora. A sensação que tive foi de emoção. As lágrimas me vieram aos olhos de forma que me senti tomada por uma espécie de alegria e contentamento. Me senti plena e feliz. Aquele menino havia me tocado a alma.

Mas existem protocolos! Estávamos no teatro mais importante e conhecido da cidade e aquilo seria inapropriado demais para ser permitido. E, para resolver essa questão "desconfortável" o pessoal do apoio foi conversar com o garoto. Certamente estavam lhe solicitando que sentasse e ficasse "quieto", como deveria ser. Aprendemos isso desde pequeno: "Não mexa nisso!" "Não faça aquilo!". Talvez num primeiro momento eles não tenham notado, e eu prefiro acreditar que não, mas o garoto tem a chamada Síndrome de Down. Ele voltou para o seu lugar, após resistir muito pouco (sua resistência foi continuar dançando enquanto a moça lhe falava ao ouvido) e sentou-se como todas as outras pessoas que lá estavam, comportadas, reprimidas, moldadas pelas convenções sociais que regulam nossos comportamentos.

Não adiantou muito. Ele levantou-se novamente ao som de outra música animadíssima e em poucos segundos, tornou-se atração coadjuvante do show pelo qual havíamos pagado. Seu espetáculo era lindo, brilhante e emocionante demais! Ele deixou a muitos de nós encantados, desejantes quem sabe, de estar no seu lugar e podermos também dançar ao som daquelas músicas instigantes e deliciosas. Novamente alguém falou ao seu ouvido. Dessa vez ele demorou mais um pouco, mas sentou-se ao final da música escolhida por ele, para deliciar-se com sua dança.

Já estávamos para mais da metade do show, que durou cerca de uma hora e meia, e uma moça de vestido vermelho que estava do outro lado do salão, levantou-se e, descalça, começou a dançar animadamente pelas escadarias do teatro. O rapaz, ao vê-la se remexendo, pareceu não resistir e levantou-se novamente. Dessa vez, ele voltou à frente do palco e dançou como antes... A moça desceu e fizeram um dueto de corpos na frente de todos que batiam palmas e gritavam de contentamento. O show tinha algo a mais, algo inesperado, algo de sensacional que ninguém jamais poderia imaginar. Não fosse a espontaneidade do momento, aquilo não valeria muito. Mas sim, teve um valor imensurável! A moça logo retornou ao seu lugar, mas ele continuou. E daí em diante foi difícil contê-lo. Ele permaneceu na frente do palco e os organizadores pareceram se render à naturalidade daquele show à parte que acontecia para todos nós. Jogaram luz no garoto. Aquela luz que destaca o ator principal num monólogo. E ele dançou. Dançou com sua sombra projetada, dançou consigo mesmo e dançou com todos nós. Foi algo indescritivelmente emocionante e inesquecível. Me senti apaixonada por aquele menino e pela espontaneidade que ele ali estava representando a todos nós. Um tapa na cara de tanta hipocrisia social sobre como devemos nos comportar. O que esse menino nos deu foi uma verdadeira lição de comportamento, educação, liberdade e convivência social. Nos ensinou um pouco sobre as desnecessidades de tanta formalidade.

Por que não dançar e dançar e dançar...? Verdadeiramente, nenhuma ordem se quebrou. Ele nos mostrou que há civilidade no incomum. Os seres humanos tradicionais seriam mais interessantes se aprendessem com aqueles que nos fazem viver em pensamento o que não temos coragem de viver em sociedade. Saí de lá querendo registrar esse momento na esperança de que a leitura desse texto me traga um pouco a emoção que senti naquele dia e da liberdade que pretendo imprimir na minha vida a partir de hoje.

30 de dezembro de 2012

A chegada do novo

Para mim existe uma grande diferença entre o dia 31 de dezembro e o primeiro dia do novo ano. Não pelas mudanças que posso vir a implementar nos próximos 365 dias, mas porque nunca gostei de despedidas. 

Pelas minhas lembranças nunca gostei da festa do réveillon, ao contrário da maioria das pessoas ao que parece. Por outro lado, o dia primeiro de janeiro sempre me traz uma sensação de renovação, de novos projetos em prática e de muitas surpresas... Novamente, não é pelo envolvimento da campanha que se faz em torno do novo que um ano vindouro pode trazer, mas por efetivamente conseguir associar essas experiências à minha vida e às novas oportunidades que aprendi a criar, ainda no final de cada ano velho. Bons projetos para o novo ano trazem sempre sensações agradáveis a mim. Sentir-se útil, renovada, amadurecida, competente. Isso é muito gostoso! Mas pensar em deixar para trás as lembranças do que vivemos não me deixa confortável. Eu acho que sei explicar, mas ainda não me sinto disposta a me abrir sobre isso. O fato é que não gosto de réveillon. Esse clima de festa, antecipações, preparações, roupas, cabelos, sapatos, lugares, pessoas... Tudo parece mágico aos olhos de quem planeja uma entrada de ano triunfante, como se o simples fato de acreditar, sim, eles nos fazem acreditar, que tudo será muito melhor no ano que se inicia bastasse para que as mudanças acontecessem. É como se tivéssemos uma segunda chance, só que multiplicada a cada ano. Aos que a essa altura do texto já desenvolveram a teoria de que eu vivo presa ao passado e por isso não gosto de me despedir, devo informar que enganam-se inteiramente. Não gosto de reviver o passado. Na verdade tenho pavor a essa ideia. E muito menos tenho medo do  novo, da mudança. Até gosto dessa adrenalina de se jogar no desconhecido, mas na noite do dia 31, precisamente nela, sempre sinto vontade de chorar. Não me pergunte se é tristeza ou alegria, dor ou alívio... Não sei responder a essas perguntas. Apenas sinto isso e, quando vai se aproximando da meia noite, horário em que provavelmente todas as pessoas do mundo estão vibrando positivamente para si mesmas, preparando-se para a entrada do ano, eu me preparo para não deixar que as lágrimas caiam. E fico tensa, e esqueço de desejar... Sempre perco o momento exato em que deveria estar mentalizando, assim como as outras pessoas, coisas boas para a minha vida. 

De qualquer forma, não é algo que dure a noite toda. Pelo contrário, costuma passar assim como terminam de brilhar as fagulhas dos fogos de artifício no céu. Passados os estouros, as luzes, os brindes, os abraços e os votos de um lindo ano novo, volto ao natural, sem choro, sem aperto, sem tensão... Mas só me sinto verdadeiramente renovada quando o dia primeiro amanhece. Geralmente é um dia de sol, ao menos dentro de mim, onde os planos estão fervilhando ardorosamente prontos para acontecer. Não espero nada mágico na minha vida. Melhor ainda, não espero nada na vida. Gosto de correr atrás, de refletir, de renovar, de mudar. De trocar de ares, de lugares, deixar que algumas pessoas saiam e que outras entrem. Num ciclo natural e revigorante, que me faz pensar que tudo pode realmente ser diferente.

Mais um ano se passou e minhas lembranças levam experiências agradáveis e desagradáveis, que me fizeram ser quem eu sou. No próximo ano, eu desejo que as pessoas prestem mais atenção umas nas outras, que se sintam verdadeiramente solícitas, delicadas, gentis e prestativas na medida de suas condições. E que também possas ser e estar mais tolerantes, educadas, dedicadas e realizadoras de suas vontades. Donas de suas próprias rédeas, para que as simpatias possam ganhar força. Por que não ajudar o cosmos? Acreditar somente, sem sair do lugar, sem se movimentar, ainda que dentro de nossas próprias cabeças, tem se mostrado em vão. Nesse caso, quando o próximo ano terminar, podemos ter a sensação de que o ano passou rápido demais ou de que não conseguimos nada do que queríamos. Por isso, desejo que possamos acreditar no que nos faz bem, sempre na intenção de que o nosso bem não prejudique o outro. Que nossas simpatias de final de ano, as profecias, os búzios, os planetas regentes, o sol, e tudo mais a que costumamos recorrer nesse final de ano possam estar a nosso favor e que em nossas cabeças e nossos corações estejam sempre presentes as atitudes necessárias para que possamos fazer acontecer o ano de 2013.

7 de agosto de 2012

Compromisso Social (?)

Pensar em sair de carro nos dias de hoje é ter que planejar os gastos além dos triviais: gasolina, manutenção, onde estacionar... É pensar em proteger seu bem, muitas vezes conquistado com o suor do trabalho e, portanto fruto de dinheiro honesto, que aos olhos de quem somente observa, parece uma dádiva que nos foi concedida por sorte ou qualquer força mística de merecimento. Pode ser atribuído também à sorte, às oportunidades, ou seja, a tudo, menos ao seu esforço cotidiano.

Antes de mais nada pagamos impostos para tudo, inclusive para respirar. No mínimo IPVA e IPTU deveriam nos garantir o direito de parar o automóvel nas ruas onde a sinalização permite, mas não é o caso. Na cidade onde moro, e certamente tem sido uma realidade compartilhada nas capitais deste país, não há mais espaço para os carros, nem para trafegar nem tão pouco para estacionar. Sendo esta uma triste constatação, nós motoristas, que precisamos trabalhar e também gostamos de passear, precisamos encontrar maneiras de usar os nossos carros, repeitando as leis e a utilização dos espaços públicos.

Para complementar, as ruas que não estão sob custódia da prefeitura, onde podemos novamente PAGAR para estacionar em via PÚBLICA, passaram a ser ocupadas por centenas de pessoas que se propõem a "cuidar" dos nossos veículos às vezes de forma educada e proativa, outras tantas sem o menor cuidado ou mesmo (e principalmente), usando de coação: "É cinco reais adiantado" ou melhor ainda: "É dez reais adiantado", e assim por diante, a depender da disponibilidade de vagas (procura e oferta) e do tipo de acontecimento que implica na quantidade de pessoas que irão fazer de tudo por um "cantinho".

E da forma como as coisas vêm acontecendo, muito mais do que o bem estar econômico e social de alguém que tenta tirar o seu sustento de forma honesta, me sinto como se estivesse sendo assaltada de uma forma elegante, às vezes sutil, sob pena de sofrer consequências, sabe-se lá de quais naturezas, caso se negue a pagar adiantado por um serviço que não pediu ou mesmo não precisa.

Do mesmo modo, percebo o valor cobrado pelos guardadores regularizados, que usam coletes, cartelas e eventualmente nos atendem de maneira gentil, também como um roubo, só que consentido, porém, não menos ofensivo. A diferença é que a ameaça não é em relação à integridade física da pessoa ou do veículo, mas legalizada, padronizada: "Se a SET pegar seu carro sem a cartela, leva multa e reboca". E diante desse argumento irrefutável e da certeza de que encontraremos o nosso bem no mesmo lugar, com certa segurança, pagamos e tratamos o fato com naturalidade, como um evento que não se discute. Seguimos adiante e para o dia seguinte, separamos o dinheiro "do estacionamento".

No ano passado fui assaltada numa ocasião dessas. A noite, entrando num bar na companhia de amigos, não pagamos os R$ 5,00 na chegada, pois achamos justo pagar na saída, quando constataríamos que o "flanelinha" estaria lá, e que havia "tomado conta" do carro. Então, quando retornamos 5 minutos depois, pois desistimos de ficar no local, fui atacada pelo próprio guardador de carros, que me tomou a bolsa, com uma das mãos no meu pescoço enquanto a outra tentava puxar a bolsa e me empurrava ao chão.

Este ano, mais um episódio curioso. O rapaz aproximou-se de mim, logo após que encontrei uma vaga SOZINHA e estacionei, sem a brilhante ajuda de ninguém. Ele somente acenou e não me cobrou nada antecipadamente. Naquele momento eu comentei com uma amiga que estava comigo que não tinha dinheiro em espécie para pagar ao rapaz, no que ela retrucou: "deixa, a gente não paga". Mas diante da experiência anterior sempre me sinto sobressaltada nessas situações, ou seja, quando não tenho o "trocado" para o guardador, me sinto antecipadamente ameaçada. Na volta, o rapaz, pediu R$ 5,00, se aproximou e estendeu uma das mãos próximo ao vidro do motorista, do meu lado, onde eu ignorei e ele, ao perceber que não receberia sua recompensa, esmurrou o retrovisor e deu um chute na porta traseira do carro.

Resumo da ópera: Por sermos considerados responsáveis pela pobreza, pela superpopulação e falta de controle na natalidade, pela existência de políticas públicas assistencialistas que só funcionam para controlar e alienar, com vistas às eleições e por sermos cobrados de sermos mais "humanos", terminamos por arcar com todas as consequências de nossas escolhas, pagando com nossos bens, com o risco de perdemos até mesmo nossas vidas, por eventos banais, cotidianos, pelos quais somos responsáveis.

Bom, pelo menos há tempo para pensarmos em quem devemos escolher para nos representar publicamente, para que efetivamente possamos nos sentir responsáveis pelo que enfrentamos no nosso dia a dia.